Em defesa do materialismo

Uns tempos atrás eu pensava que tinha algum tipo de doença que me fazia querer o melhor de tudo. Não necessariamente o mais caro, mas eu passo boa parte do meu dia pesquisando e conversando sobre fones de ouvido e teclados, acompanhando os lançamentos de tênis e roupas, vendo tipos de canetas que me agradariam na hora de escrever, enfim.

Eu não sabia o porquê, mas eu sempre gostei de coisas. Não necessariamente de “ter” coisas, mas de usar elas. Eu tenho uma coleção de teclados, canetas, fones e todas essas coisas, mas nada fica parado empoeirando. Eu simplesmente tenho gosto por usar essas coisas e de como elas impactam a minha vida. Isso é materialismo.

Materialismo é um termo que você quase sempre vê associado a uma coisa negativa.

“Comprar coisas que você não necessita pra sua sobrevivência é ruim, você deve viver só com o necessário” é uma coisa que se vê muito por aí. Entretanto, a maioria das pessoas não sabe a diferença entre consumismo e materialismo.

Materialismo, na sua essência, é obter prazer utilizando coisas materiais. Consumismo, por outro lado, é obter prazer COMPRANDO coisas materiais. Isso faz uma diferença gigantesca e muda bastante o jogo.

Consumismo é muito perigoso pois a nível mental ele funciona como uma droga: você passa o cartão, tem um pico de dopamina no cérebro que dá o prazer e depois de uns momentinhos, tudo volta ao normal. Basicamente, esse comportamento é o maior causador de vícios, desde compras, comidas, drogas, redes sociais, qualquer coisa.

Ser materialista significa que você sente-se bem toda vez que usa seus bens materiais. Teclados mecânicos, um assunto recorrente nesse blog, é um bom exemplo disso.

Materialismo é bom para o planeta

Se você é materialista, as chances são que você cuida melhor dos seus objetos. Sejam eles tênis, computadores, teclados, facas, tanto faz.

Isso quer dizer que essas coisas não vão virar lixo tão cedo. Um comportamento consumista seria comprar um tênis novo sempre que o antigo ficar desgastado. Por outro lado, se você sente prazer em possuir e utilizar algum calçado, provavelmente você vai cuidar, limpar, restaurar e usar ele muito mais. O impacto ambiental é naturalmente menor quando isso acontece.

Hobbies são materialistas por natureza

A grande maioria dos hobbies envolve muito materialismo ou é inteiramente baseado nele. Desde o cozinheiro que ama de paixão suas facas e ferramentas de cozinha ou o pescador que jura ter a melhor vara de pesca do mundo até os entusiastas de relógios ou fones de ouvido que tem seus hobbies inteiramente baseados no singelo prazer de usar ou possuir certos equipamentos ou produtos.

Hobbies são ótimas maneiras de se fazer amigos e conversar com pessoas. Eu conheci muita gente e fiz muitos amigos conversando sobre periféricos de computador, por exemplo.

Comunidades entusiastas costumam ser lugares legais de se fazer amizades, você já sabe de interesses em comum com o outro, é totalmente orgânico.

Tem muito a se aprender

Quando você aprecia aquilo que usa, você quer entender o porquê daquilo. Foi assim que eu aprendi um pouco sobre termoplásticos, processos de anodização, injeção de plástico, ligas metálicas, enfim. O ponto é, você começa a estudar pra ter sempre a melhor qualidade, e não se contenta em simplesmente saber que “é bom”, tem que saber o motivo disso também. E as vezes isso implica em entender conceitos de várias ciências diferentes. Dessa forma, fica muito mais interessante aprender: você enxerga na prática o motivo dessas coisas.

Cada parte do seu dia fica melhor

Tem algo especial em usar uma caneta legal pra fazer uma prova, uma cafeteira especial pro seu cafézinho salvador das manhãs, escrever um relatório chato em um teclado maneiro ou até mesmo abrir uma encomenda com uma faca de titânio. O Materialismo genuíno faz você prestar mais atenção no que faz, te deixa mais conectado com suas ferramentas e com seus brinquedos.

São coisas pequenas, mas melhorias na qualidade de vida por mais supérfluas que pareçam, melhoram nem que seja um pouquinho o seu dia-a-dia.

Too much of a good thing is a bad thing

Materialismo é algo positivo. Mas não exagere. Tudo em excesso faz mal e você sabe disso. Seja consciente sobre tudo que você faz e consome. Presta atenção. Não viva em função daquilo que você possui. Isso não é importante.

Evite o consumismo

As vezes a linha entre consumismo e materialismo fica dúbia.

Não compre coisas impulsivamente. Tenha noção que nada disso vai te fazer feliz e você não precisa de praticamente nada disso. Fique namorando as coisas antes de comprar. Seja consciente de tudo que você compra. Compre coisas que você quer pra você, não para impressionar os outros.

Não compre hype

Existe uma boa diferença entre valor intrínseco e valor imaginário. O primeiro é fácil de avaliar: qualidade dos materiais, construção, essas coisas. O segundo é mais etéreo: marca, escassez, hype, marketing. Não estou dizendo para não comprar produtos de marca ou coisa do tipo. Só seja consciente dos motivos pelos quais você faz isso. Táticas de marketing servem para fazer as coisas parecerem melhores do que realmente são. Conheça o que te atrai em um produto e seja sincero com você mesmo.

Não há nada de errado em se atrair por um produto por causa da marca ou porquê é raro ou hypado, apenas seja consciente sobre o que você está comprando.

Viva o materialismo

É uma característica inerente a condição humana: a gente gosta de coisas legais. Sempre foi assim. Guerras foram travadas pelo brilho do ouro e pela maciez da seda.

Entender os motivos das coisas que você consome cria uma conexão maior com o seu interior. Vista-se bem, é bom pra auto-estima. Compre coisas legais as vezes.

Tanto faz, nada faz sentido mesmo.

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One thought on “Em defesa do materialismo

  1. Boa caro Unzer, gostei de suas linhas.
    Me vi conectado nessa trama, ora prazerosa, ora contraditória.
    Entre alguns hobbies como hardware, gadgets tanto hi-tech como analógicos, também fisgado fui e não raro é exatamente a sensação que se têm…o gosto por filmes e música desde adolescente evoluiu para a descoberta dos sistemas de som multicanais de Home Theater e também a audiofilia, ambos me trouxeram várias amizades e conhecimentos, os quais sustento até hoje passadas algumas décadas, coisa de mais de 20 anos para ser exato…sim, já cometi alguns exageros também no departamento de tênis e roupas mas seguramente sinto apenas que antecipei o que poderia ter comprado aos poucos e paulatinamente, rsrs.
    Nem por isso sinto arrependimento, claro, não passou do ponto de chegar a ser um problema mas também, convenhamos, alguns gostos valem ser saciados, a esse “alguns” me refiro a exatamente ao processo que vc citou, também mencionado em algum trecho do Sun Tzu acerca da importância de se “aperfeiçoar” em algo.Afinal, até para se servir um chá têm o seu “pulo do gato”, rsrs.
    Concordo em grau, gênero e número nesse conceito porque creio que chegar a certo grau de entendimento mais profundo e apurado de algum tema que gostemos nos torna sempre MELHOR, melhor inteirados, melhor preparados, e esse esforço e dedicação dispendidos pode ser aproveitado de forma sublime : seja compartilhando com outros não iniciados e sedentos pelo pouco que já tenhamos aprendido, seja para nos impulsionar na busca de algo a mais.
    Em resumo, todo esse processo faz bem e acaba sendo como combustível e impulsionador ao conhecimento.

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